O crescimento na berlinda

“Uma vez que a população e a economia extravasaram os limites físicos da Terra, há apenas dois caminhos de volta: colapso involuntário causado por uma escalada de escassez e crises, ou redução controlada da pegada ecológica por uma escolha deliberada da sociedade”. ( LIMITS TO GROWTH – THE 30-YEAR UPDATE)
A Terra está ficando pequena para nós: já estamos necessitando de pouco mais de um planeta para sobreviver! Em decorrência do uso que a humanidade tem feito dos serviços prestados pelos eco-sistemas, já avançamos em mais de 20% sobre a capacidade da Terra de se auto-regenerar, ou seja, de retornar a um estado já ultrapassado de equilíbrio dinâmico saudável.
Essa é a nossa “pegada ecológica”, o rastro que cada um de nós e o conjunto dos seres humanos deixamos na Natureza, equivalendo a quanto a atividade humana, a econômica em particular, afeta o estado estável do planeta. É o que nos revelam Donella Meadows, Jorgen Randers e Dennis Meadows no livro Limits to Growth – The 30-Year Update (Chelsea Green Publishing, 338 páginas), ainda sem tradução para o português(1). O três autores são cientistas que se têm dedicado, no Clube de Roma, a estudar até onde poderemos chegar na trilha do modelo vigente de crescimento e acumulação. Donella faleceu pouco antes de concluído o livro.
O que mais surpreende é que – como nos atesta Mathis Wackernagel, diretor do Global Footprint Network e citado pelos autores –, se o padrão de vida proporcionado pelos hábitos de consumo dos norte-americanos fosse adotado por todos os demais humanos, tendo por base o ano de 1996, necessitaríamos de três planetas Terra. Cálculos mais recentes elevam essa proporção para quatro. Isso num mundo onde as desigualdades entre povos e nações são gritantes e clamam pela elevação das condições de vida dos mais desvalidos. Ou seja, nivelar a riqueza por cima se mostra inviável. É um tanto assustador!
Os autores nos indicam que o crescimento está sujeito a severos limites e a superação das desigualdades sociais e econômicas é um desafio sem resposta convincente. A esse cenário que alimenta inquietudes e interrogações se contrapõe a idéia de sutentabilidade, de que os autores se servem como paradigma para a construção de um futuro mais animador. O mote desse posicionamento passa a ser o Desenvolvimento Sustentável, aquele que “satisfaz as necessidades do presente sem pôr em risco a capacidade das futuras gerações de satisfazer suas próprias necessidades”.
O livro Limits to Growth – The 30-Year Update é o terceiro de uma série que se iniciou em 1972. O primeiro leva o mesmo nome deste que agora é reescrito: Limites do Crescimento (200 páginas, traduzido pela Editora Perspectiva). Os cenários nele desenvolvidos com utilização do software World3, e que mantêm a mesma estrutura lógica na edição atualizada de 2002, combinam dinamicamente as cinco variáveis escolhidas como críticas para a vida humana no planeta: População, Recursos Naturais, Produção Agrícola, Produção Industrial e Poluição.
Segundo a versão rodada em 1972, o crescimento contínuo contaria no máximo com mais 100 anos à frente para atingir seu limite. Quanto otimismo! Vinte anos depois, em 1992, os autores lançaram o segundo livro da trilogia: Beyond the Limits (Chelsea Green Publishing, 300 páginas), não traduzido para o português, e que pelo título já diz a que veio.
A tese central do livro decreta: rompemos o equilíbrio, entramos no “overshooting” – algo como “sobrecarga” – significando justamente que a pegada ecológica da humanidade já havia ultrapassado a chamada bio-capacidade do planeta, sua capacidade de prestar os serviços dos eco-sistemas com preservação do equilíbrio que mantém a vida. As simulações mais recentes, desenvolvidas no The 30-Year Update, assinalam a ampliação desse extravasamento e antecipam que, se nós o ignorarmos, “os sistemas naturais decidirão por um desfecho sem contemplação para com o bem-estar humano”.
Tudo que estava sendo posto em cheque era, em essência, o crescimento econômico como sinônimo de progresso; na verdade, era contestada a própria lógica da atividade econômica e sua relação com o meio-ambiente. Nesse contexto, o modelo de empresa maximizadora de resultados financeiros, com visão de curto-prazo e orientada ao permanente crescimento a despeito dos custos ambientais e sociais, passa a ser o foco das controvérsias. Mas o meio empresarial logo se posicionou em resposta a essas investidas.
Em 1995, foi fundado na Suíça o World Business Council for Sustainable Development, que hoje conta com mais de 180 associados, grandes empreendimentos transnacionais comprometidos com a idéia. No Brasil, é representado pelo CEBDS – Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável, cujo quadro de associados congrega 43 empresas que representam cerca de 40% do PIB nacional. O modelo de gestão que costuma inspirar a atuação dessas empresas é o chamado “Triple Bottom Line”, que estipula as três dimensões da sustentabilidade em que uma empresa deve buscar resultados: a econômico-financeira, a social e a ambiental – um substituto à busca exclusiva de resultados de natureza financeira.
Os movimentos de Responsabilidade Social Corporativa e de Sustentabilidade Empresarial têm convergido para o mesmo propósito de assegurar um futuro viável para a sociedade humana. No Brasil, o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social conta com mais de 1200 associados. Essas são sem dúvida boas novas. É a empresa no exercício de sua capacidade de transformar a sociedade e o planeta, deixando assim de fazer parte do problema para constituir-se em agente da solução, resgatando passivos acumulados.
De todo modo, as mudanças de rumo que o livro Limits to Growth – The 30-Year Update propõe à sociedade são múltiplas e abrangentes. “Os governos e os lideres corporativos” – constatam os autores – “fazem tudo o que podem para produzir mais e mais crescimento”, o que já vimos que por si agrava o impacto da pegada ecológica. Mas não há consenso nos meios acadêmicos e, principalmente, no universo político, como advertem os próprios autores – o que é compreensível face aos interesses amplos e imediatistas que as evidências apresentadas ameaçam. Nesse sentido, a negativa dos Estados Unidos de aderir ao Protocolo de Kioto é emblemática.
Há que se reconhecer entretanto que o universo empresarial, principalmente as empresas que atuam globalmente, têm nisso desempenhado um papel auspicioso, revendo processos que impactam o ambiente, buscando reduzir o consumo de insumos críticos como água e energia, e atuando como agente educativo de seus públicos para uma melhor compreensão e tratamento das dinâmicas sócio-ambientais. Essa é uma direção certa e segura. E lucrativa também – como atestam os índices de sustentabilidade das bolsas de Nova Iorque e de Londres e, mais recentemente da Bovespa, que acompanham a evolução do valor das ações de empresas com boas práticas socioambientais e de governança, que se posicionam historicamente acima do índice geral das demais empresas negociadas.
1- Recentemente traduzido (2008) sob o título “Limites do Crescimento: a Atualizaçao de 30 Anos”, editora Qualitymark.
Artigo publicado nos sites:
• Instituto Ethos (11/08/2005) http://www.ethos.org.br/DesktopDefault.aspx?TabID=3345&Lang=pt-B&Alias=Ethos&itemNotID=7413
• Radar 21 (01/09/2005) http://www.radar21.inf.br/radarnews01092005.htm
Homero Santos Diretor da Fractalis –Renovação Empresarial Consultor em Sustentabilidade Empresarial e Responsabilidade Corporativa
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